terça-feira, 29 de abril de 2014

Sobre a ausência



A saudade é produto da ausência. Uma coisa tão absurdamente simples que quase me pego rindo. Mas não rio. Porque há uma grande possibilidade da sua ausência me causar saudades.


Por enquanto estou livre disso. Passaram-se somente três dias e sua ausência ainda é quente, então posso fingir que está aqui, sentado ao meu lado e me vendo escrever, como sempre fez. Não sou uma boa narradora, mas todos têm um hobby que acalma: alguns pintam, outros saem para pescar. Eu escrevo para fugir de uma realidade que não me convém agora.

Pensando um pouco, gosto dessa palavra, ausência. É muito bela, deixa um gosto bom na boca quando dita em voz alta. AUSÊNCIA. Sei que você nunca gostou dela porque lembrava seus pais, que perdeu na infância. Estranhamente, eu não conseguia me compadecer por completo da sua dor, porque a ausência deles estava só em ti. Para mim eles eram nada. Talvez por isso tenha partido. Te espantava minha capacidade de amar somente o que é vivo, deixando tudo que é morto para trás. Você foi a única exceção, claro: já estava morto quanto te conheci, mesmo assim amei o seu vazio.

Contudo, confesso que sua morte física me pouparia algumas coisas. Não a saudade, mas a dúvida de que me amava ou não. Se seu corpo fenecesse, eu tomaria uma taça de vinho relembrando os nossos momentos e isso seria mais forte que a dor da perda.

Infelizmente, você está vivo. Sua alma ainda vaga por aí procurando o sentido que não encontrou comigo. Este sempre foi o seu problema: tentar se projetar em outrem, quando o abismo se acha sem si próprio. Mas agora que já não está em mim, é difícil controlar esta sensação de que só posso existir em você. Que somos dolorosamente iguais.